Procura por alimentos saudáveis e proteínas vegetais modificará a indústria de alimentos

Procura por alimentos saudáveis e proteínas vegetais modificará a indústria de alimentos – Região – Jornal NH

Mudança no comportamento do consumidor sinaliza uma tendência mundial na busca por alimentos mais sustentáveis

Procura por alimentos saudáveis e proteínas vegetais modificará a indústria de alimentos – Região – Jornal NH

A estimativa de crescimento da população mundial, acompanhada da mudança de comportamento do público consumidor, sugere à indústria de alimentos um novo perfil. Pode parecer impossível, principalmente para os gaúchos, imaginar um prato sem carne, mas a tendência no mundo demonstra que alimentos de origem vegetal, sobretudo a proteína, estão em ascendência. Esse assunto foi um dos temas abordados no início do mês, durante o encontro da Câmara Setorial do Mercosul, que debateu as  perspectivas para o agronegócio no Rio Grande do Sul, considerando também o cenário mundial. 

Fatores da mudança

Conforme projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050, 66% da população mundial será urbana. Na América Latina, esse percentual será de 86%. Sendo que mais da metade desse contingente pertencerá à classe média.

Isso significa maior demanda de alimentos. Contudo, as projeções também vislumbram escassez de recursos naturais, principalmente a água. Por si, esse cenário exigirá emprego de tecnologia para atender à demanda de alimentos.

Associado ao crescimento populacional soma-se a mudança de comportamento entre os consumidores. As pessoas procuram, cada vez mais, produtos sustentáveis. O consultor em agronegócio Carlos Cogo, que participou da Câmara Temática do Mercosul, explica que há uma tendência mundial no consumo baseado em vegetais – conhecido como plant-based. Esses “megatrends para o agronegócio” no mundo devem remodelar a indústria do alimento.

“O agronegócio está preparado para essas mudanças. O que vamos verificar é uma migração do uso de produtos e nutrientes vegetais com alto teor de proteína (soja, trigo, ervilhas, grão-de-bico, girassol, etc.) para a produção de plant-based”, resume Cogo.

O consultor explica que já existem diversas iniciativas neste segmento, e as empresas brasileiras já estão produzindo hambúrgueres e outros produtos em fábricas nacionais. Além disso, a demanda por proteína vegetal tende a beneficiar a agricultura, comenta Cogo.

“A Agricultura Familiar tem perfil adequado para se beneficiar dessas tendências, pois está preparada para produzir vegetais de forma diversifica e, se necessário, em menor escala”, sugere.

A mudança em curso não significa o fim da carne. “Essa tendência é que as pessoas vão ter mais plantas no prato”, opina a coordenadora do Itt Nutrifor, Renata Ramos, que trabalha com pesquisa aplicada, na Unisinos.

Supermercados se modificam

Hoje, os alimentos com algum tipo de apelo saudável crescem em média 24% acima dos similares sem este apelo, segundo a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas). “No tocante aos hortifrutigranjeiros, há um crescimento contínuo de cerca de 3% a 5% ao ano nas vendas. Quanto aos orgânicos, infelizmente ainda estão cerca de 40% mais caros do que produtos não-orgânicos, e o consumidor ainda não está com renda para ampliar suas compras. Mas há um público muito fiel a estes itens, com um crescimento pequeno ano após ano”, atesta a entidade.

Empresas podem se planejar para atender

A coordenadora do Itt Nutrifor, Renata Ramos, entende que o consumo de carne tende a dimunir, mas “nem tanto”. A pesquisadora explica que, diante de tendências de mercado, como esta que indica o aumento do consumo de alimentos de origem vegetal, é uma oportunidade para as empresas se projetarem para o futuro. “É uma oportunidade de negócios para sair na frente e alcançar o consumidor”, explica. Renata comenta que há mais de dez anos se discute sobre a predileção do consumidor por proteínas vegetais, por exemplo. “Mas isso começou a ficar mais evidente nos últimos anos”, afirma. Contudo, o consumo atualmente ainda ocorre em forma de nichos. Renata explica que embora haja crescimento de consumidores vegetarianos e veganos – mercado que está em expansão, a maiora das pessoas ainda consumirá carne. “A indústria terá de se adaptar e esse consumidor, principalmente aos flexitarianos (quem come proteínas animal e vegetal), que são pessoas que podem ficar muito tempo sem comer carne. Essas pessoas precisarão ser atraídas para consumir determinado produto, e aí a indústria precisa se remodelar, ser transparente e investir em qualidade e saudabilidade”, comenta Renata.

Considerando o comportamento do consumidor, que busca por alimentos mais saudáveis, a pesquisadora da Unisinos vislumbra que a indústria da carne terá de se posicionar no mercado no sentido de agregar valor ao produto. “A cadeia da carne terá de se remodelar, terá de ser sustentável, com selo de saudabilidade” comenta Renata, reforçando que o aspecto da saudabilidade tende a ser o mais importante. “Mesmo que o consumidor queira comprar uma proteína a partir de grão de bico, por exemplo, mas se a indústria gera muito resíduo, o consumidor não vai comprar. Portanto, a empresa tem de ser transparente e isto tem de vir junto com o produto”, analisa a coordenadora do Itt Nutrifor, Renata Ramos.

Painel sobre o cenário global e perspectivas

As perspectivas para o agronegócio do Rio Grande do Sul e os desafios comerciais, sanitários e geopolíticos globais foram o tema central de reunião da Câmara Setorial do Mercosul e Comércio Exterior, realizada na sede da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), em Porto Alegre. Cerca de cem pessoas, entre líderes e representantes de entidades da agropecuária gaúcha, lotaram o auditório para ouvir a explanação do consultor Carlos Cogo, que detalhou vários pontos de impacto para a evolução das exportações brasileiras.

O painelista, que é consultor independente do setor, também apresentou um panorama global do agro, abordando desde “a confusão sanitária global”, com possíveis impactos do coronavírus e da peste suína africana, que causou forte impacto na produção de suínos na China, maior consumidor mundial deste tipo de carne, e levou o país a duplicar importações, pressionando os preços.

Entidades do agronegócio e agricultura familiar, além de representantes do setor, participaram do evento.

Câmara Temática do Mercosul

A Câmara Temática Mercosul e Comércio Exterior foi criada por decreto estadual em 2019 e tem entre seus objetivos subsidiar políticas públicas em âmbito estadual e federal, estimular a prospecção de novos mercados, avaliar situações problemáticas, buscar soluções e antecipar-se para evitar crises e reduzir assimetrias existentes na produção, comercialização e industrialização de produtos agropecuários.

Futuro do setor foi o tema principal

“Nosso Estado precisa ter presença e expertise para se posicionar e abrir mercados”, resumiu o secretário da Agricultura, Covatti Filho, na abertura do encontro da Câmara Temática do Mercosul. O encontro teve a presença de representantes da Argentina e Uruguai.

Covatti Filho abriu o encontro

Secretário conduziu as participações do painelista Carlos Cogo, do senador Heinze e do diretor de Políticas Agrícolas Ivan Bonetti.

Megatrends para o agrobusiness global

Em sua apresentação, o consultor em agronegócio Carlos Cogo mostra aspectos que podem impactar numa remodelação da indústria de alimentos. A urbanização e a escassez de água estão entre os fatores apontados pelo especialista. Além disso, os “consumidores da nova era”, geração Y e geração X representam a nova relação de público e mercado.

Revolução digital na agricultura

Ainda é pequena a inserção digital na agricultura, representando 0,3%, contra 2,5% no setor financeiro e 12% no varejo. Mas, conforme as informações divulgadas por Cogo, existe um campo de crescimento na área digital, com tecnologias como IoT (Internet das Coisas) e impressoras 3D, para citar apenas alguns exemplos da Agricultura 4.0.

Alimentos de fontes sustentáveis

De acordo com Cogo, o consumidor tenderá a escolher marcas e alimentos provenientes de fontes sustentáveis. A sinalização é de que a indústria alimentícia tenha mais engajamento consciente sobre como a comida é produzida e como é consumida. O consumo estará mais voltado para a saúde e o bem-estar, valorizando produtos naturais, orgânicos.

Na atualidade, o consumo de carne está na dianteira

A China é o principal importador de carnes. Desde 2017, o país perdeu 295 milhões de cabeças suínas.

China

A expectativa é que a China importe, em 2020, 3,5 milhões de toneladas de carne suína. O que abre mercado para o Brasil.

27%

As exportações brasileiras de carne bovina cresceram 12,4% em 2019. A participação da China representa 27% como destino.

Cenário global para as exportações brasileiras

Entre os principais desafios para o agronegócio nacional estão o acordo comercial Estados Unidos China; as inseguranças que rondam países sul-americanos como Argentina, Venezuela, Chile e Bolívia; o conflito entre Estados Unidos e Iraque; a possível mudança da Embaixada Brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém; o acordo Mercosul-União Europeia, que pode render oportunidades no longo prazo; e polêmicas ambientais, especialmente envolvendo a Amazônia e seus riscos comerciais.


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